sexta-feira, 22 de setembro de 2017

O JOSÉ ADORMECEU NO MONTE



Hoje o salto é emigrar.

Tempos houve muito lá atrás da revolução de Abril de 1974, em que era muito difícil aos portugueses emigrarem, sem passaporte e sem razões que o estado o justificasse.

Assim, no tempo do regime político de ditadura fascista, para fugirem à fome, ao desemprego e ao cumprimento obrigatório do serviço militar com guerra no ultramar, muitos jovens emigravam, a salto. Muitos eram presos e considerados refractáriosNalguns casos ainda ajustavam contas com a Polícia de Intervenção em Defesa do Estado /DGS, e saiam bem magoados e marcados, quando saiam. (!?)

Davam o salto para Espanha e daí para França, Canadá, Alemanha, Brasil e outros países.
Haviam portugueses que se dedicavam a “passadores”, do género dos que hoje fazem com os refugiados abandonados à sua sorte em embarcações.
Muitos foram os grupos, que a troco de uma determinada quantia de pagamento aos “passadores”, atravessaram montes e vales até Valença, onde, atentos e a coberto da noite, esperavam o render da guarda da fronteira, para darem o salto para o outro lado de Espanha.
Normalmente aguentavam horas encurralados no monte e a coberto da noite, a aguardar o momento mais preciso, de distracção da guarda, para avançarem sem serem vistos. Por vezes atravessando o rio Minho nos sítios de menor profundidade.
Por lá andou também o Manel “pisco” na construção civil em terras de França, que viria a adoecer gravemente e que, sem meios, ainda conseguiu dar o “salto” de regresso, para vir morrer a casa.

Menos sorte teve o Zé “greta”, que no barraco da obra em construção, adormeceu uma noite para nunca mais acordar, devido ao fogareiro que lhe aquecia a noite fria e lhe roubou a vida. Por lá ficou.

Numa dessas passagens a “salto”, o passador Luís levou mais um grupo, entre eles o seu irmão e o sobrinho. Já passavam das quatro da madrugada quando chegaram ao ponto de vigia para controlar a movimentação na fronteira. 

O luar estava claro, obrigando o grupo cansado e com sono, a ficar quase duas horas agachado no monte entre arbustos, de olhos postos no movimento dos carabineiros na fronteira e ponte sobre o rio Minho.

Por volta das seis da manhã, no render da guarda o Luís, diz ao grupo para avançar e o seguir, sem barulho.
Como coelhos temerosos, evitando a luz da lua, lá foram sorrateiros e conseguiram chegar ao lado de lá.  

“ Pronto, estamos em Espanha! Estão todos!? – e deitou os olhos ao grupo.
- O meu sobrinho, o José!?
Todos se entre-olharam. Ninguém se apercebera se ele os tinha acompanhado ou não.
- Não me digas que ele adormeceu no monte!? – Exclamou o Luís.
Não podemos fazer nada, não podemos ir para trás, é muito arriscado.
Ainda esperaram algum tempo a ver se ele aparecia, mas tiveram que seguir caminho.
Na verdade, o José, moço dos seus 20 anos, cansado e ensonado adormeceu e ficou só no monte.
Só dois dias depois, quando o seu tio regressou a casa a Santo Tirso, se encontrou com o José, que lhe confirmou que tinha adormecido e que acordara só a meio da manhã.

Valeu-lhe a sorte de descendo à estrada, conseguir uma boleia de um camionista que o deixou a poucos quilómetros de casa.
Contos de José Faria



quarta-feira, 20 de setembro de 2017

ACORDA AMIGO


Meu companheiro e amigo
De mente manipulada,
Nunca me zango contigo,
Mas teu caminho não sigo,
Tua voz por outros fala.

Dão-te veneno a beber,
E tu fazes-lhes a vontade;
Esqueces que o saber,
A razão tem que exercer,
Para construir a verdade.

Dão-te festas e alegria,
Uns copos e mais sangria,
Pé de dança e diversão;

Engana-te a fantasia,
Vestida de hipocrisia,
Senhora da exploração.
José Faria

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

SERÁ PRESIDENTE AUGUSTO SIMÕES

SERÁ PRESIDENTE DA CÂMARA DA MAIA
Augusto Simões Ferreira da Silva

De Pedrouços.
Ontem como hoje, as intrigas e manobras que se desenvolvem e se criam entre os candidatos no decorrer d as eleições, não perdem as características engenhosas de candidaturas fantasmas ou reais, prontas para serem eleitas ou para desistirem em favor dos que pareciam adversários.
Mas será seguramente Augusto Simões, comendador e lavrador de Pedrouços o futuro presidente da Câmara Municipal da Maia.
Os tempos de grande intervenção política e social, anunciavam grandes mudanças que poderiam eclodir a qualquer momento. Nessa correria ao poder da Câmara Municipal envolvia-se freneticamente Sá e Melo, chefe henriquista da Maia, que não se deixava levar facilmente e possuía aquela costela de político vertical. Por isso tomou a peito evitar o acordo que lhe ia desarranjar para sempre a igrejinha camarária da Maia e anular por completo a sua influência politica no concelho.
E tão bem mexeu os pauzinhos que, dias depois, no salão do Governo Civil, onde ia assinar-se o acordo progressista – franquista – regenerador, a tempestade desabou com fragor tão intenso que o Sr. José Arroio, seguindo o conselho do irmão, baralhou, … e tornou a dar.
Ficaram parceiros henriquistas e teixeiristas, contra franquistas e progressistas.
Quer dizer, a vitória pertencerá aos primeiros, dado que os outros vão à urna, o que não cremos. Será presidente da Câmara Municipal, ao que nos dizem, Augusto Simões, de Pedrouços, que milita no Partido Regenerador.
A Câmara da Maia ficará, portanto, constituída por henriquistas e regeneradores.
A verdade é que Augusto Simões e os aliados de última hora, só não ganharam as eleições locais porque, entretanto, registara-se a revolução do 5 de Outubro, que faria passar por alguns dissabores e umas tantas injustiças o pequeno-grande Sá e Melo.
(in Almanaque da Maia – 1983 - de Álvaro Aurélio do Céu Oliveira)
Cento e sete anos depois, a história repete-se, também às portas de Outubro mas sem revolução republicana que impeça o programa de bastidores.
Será presidente da Câmara Municipal da Maia, certamente, o apoiado pelos parceiros de coligação semelhante, carvalhistas e carvalhistas.
Contos de José Faria com recurso à história.



domingo, 17 de setembro de 2017

ÀS PORTAS DA CIDADE





Do outro lado vê-se a cidade.
Sente-se o cheiro do reboliço e da agitação,
Da movimentação urbana,
Naquele frenesim de vai e vem.
A cidade não dorme, não descansa.
De noite e de dia sempre cheia de gente,
Em movimento constante, continuamente.
São como formigas num vai e vem
Apressado e urgente, desnorteado.
Enchem as grandes superfícies comerciais,
Como térmitas no interior dos seus enormes castelos,
Repletos de grutas e outros compartimentos interligados.
Na aldeia do Faria sente-se uma paz cúmplice e doentia;
Um silêncio embrulhado em marasmo…
E o ar da arte de comunicar, vaporiza-se!
Dorme o crescer, progredir, desenvolver…
E, antes que o sol se deite
Sobre o manto do Atlântico,
Já as ruas estão desertas, frias, desumanizadas.
Um frio calado e abafado, mesmo no verão,
Gela o silêncio ao tombar do dia…
E a recordação desperta em melancolia.
A lembrança de outros tempos que ficaram para trás.
Ainda se ouvem os cuidados chamamentos
Dos progenitores no cair da noite.
- Adriano, Zé, Mingos, Nanda,
Vinde para dentro que já são horas”.
Passado uns minutos o Luís,
Ainda a meia-noite vinha lá longe…
Ouvia-se à porta o ar zangado:
“A vossa mãe não vos chamou!?”
Mais rua acima, outro chamamento,
O último, talvez: - “Não te volto a chamar!”
Tudo ou quase tudo mudou.
Perdeu-se a noção do tempo da rua,
E do tempo da casa; e o da família,
Do tempo da diversão, e da responsável alegria,
Do tempo do progresso em união.
Do lado de cá da cidade,
As ruas perderam actividade,
São de passagem e não de convívio,
Ou diversão entre a vizinhança.
Só por altura dos santos populares
Algumas ruas, largos e pracetas,
Em determinados lugares,
Se enchem de convívio e diversão,
E até festa e alegria, na aldeia do Faria.
Do lado de cá da cidade do Porto,
Só os prédios continuam a crescer,
Com a mesma qualidade e altura,
E arquitectura, como os do lado de lá.
E lá de cima, dos mais altos,
Veem-se as casas velhas e abarracadas,
As ilhas, que vão apodrecendo abandonadas,
Recordando a miséria que por lá vegetou.
Algumas dessas velhas e antigas habitações,
Rasteiras e apodrecidas, ainda albergam almas,
Paradas no tempo e no seu espaço,
Sem jeito nem proveito à espera do seu fim.
A aldeia do Faria continua a mesma
Mas não é a mesma coisa!
Hoje o silêncio magoa, ninguém sabe nada.
O dinheiro manda mais do que a palavra,
E a aldeia já não é dos aldeões;
Está nas mãos de uns tantos silenciosos,
Autores do tempo calado e do frio social cortante,
Que abafa a cultura e o conhecimento.
Aos pés das grandes e altas construções,
Iguais às da cidade do outro lado da Circunvalação,
As ilhas e casas abarracadas gritam de podre e bolor,
Aos olhos do novo tempo calado que passa.
Uma vista degradante, disfarçada e camuflada
Pintada de outras tintas e outras cores,
Enganado o testemunho de um tempo social;
De um outro tempo do povo e da gente
Divertido, pobre e crente.
Hoje andam as ruas caladas.
Foge o povo para a cidade,
Apodrecem abandonadas,
As ilhas da Natividade
José Faria



O SARRABISCO DO BOM PATIFE


O mundo está cheio de bons patifes.
E não é preciso sair deste jardim á beira-mar plantado que se chama Portugal, para os encontrar. Vêmo-los todos os dias até como génios comunicadores.

É que o bom patife ou mau patife, que para além de ser  um modo de dizer, também é um modo de se ser e de se estar na vida, na pele de qualquer bom patife.
Eles estão por todo o lado. E é nos sítios cerimoniais, de pompa e circunstância, que mais facilmente são vistos e vistosos de colarinho branco ou de outra cor, mas todos bem engomados.
Presentemente, alguns já se disfarçam e se apresentam mais desportivamente e até de mangas arregaçadas (como quem anda a trabalhar) de telemóvel sempre encostado à orelha, mesmo desligado.(!?)

E agora é que é!

É vê-los de todas as cores, pelas ruas, mercados e romarias, distribuindo propaganda. A cabeça, ou cabeças de lista, esses nunca o largam nem o desencostam da orelha. Por vezes trocam de orelha mas o telemóvel é o mesmo, enquanto vão falando com o telemóvel desligado.

Fazem do povo parvinho!

É um faz de conta que estão sempre em comunicação.
Até ao dia um de Outubro e mais uns pozinhos à frente, não perca a oportunidade de se rir e se divertir desses que o querem enganar.
Não deixe de estar atento e de observar esses faz de conta, de telemóvel desligado sempre colado à orelha dos candidatos e recandidatos e dos seus seguidores auxiliares.
É por aí, nessas digressões de campanha, que se encontram muitos bons e maus patifes que surgem de quatro em quatro anos, a cumprimentar, a abraçar e a beijar só para a fotografia; os mais pobres, os mais carentes e os mais necessitados, como se fossem candidatos de “Calcutá”.

Muitos, detendo poderes de intervenção e de decisão, junto da população que os pariu por eleições anteriores, tornaram-se bons patifes profissionais, recandidatos aos mesmos patamares ou superiores, onde se agarram com unhas e dentes, até que a morte nos livres deles.
Bem aposentados e melhor remunerados, os bons patifes ou maus patifes, que também são democratas, somam à pensão, outros vencimentos, mordomias e outras negociatas bem rentáveis, graças à sua posição nos tais patamares superiores. (Se assim não fosse, não haveria corrupção!)
E tudo isso em troca da sua assinatura a que dão o nome de rubrica, mas que não deixa de ser um sarrabisco que nem eles entendem.

Contos de José Faria

FOGO DA DESGRAÇA E DA ALEGRIA



O incêndio de grandes proporções continua devastador a lavrar toda a serrania, As labaredas, numa correria louca, seguem serra acima imparáveis nos braços de um vento assustador, e o negro e fumegante da terra queimada vai aumentando à sua passagem.
Alimentando-se da vegetação rasteira, as labaredas trepam às copas de eucaliptos transformando-os em archotes gigantes.
A poucos quilómetros deste inferno, a aldeia está em festa religiosa e profana em honra da santinha padroeira da terra e da gente.
Duas bandas de música continuam a tocar e a percorrer festivamente as principais ruas da aldeia.
O incêndio de grandes proporções continuava imparável a alimentar-se da serra enquanto no céu da população, um outro fogo, festivo, de 21 morteiros, estremece com as casas dos aldeões. Seguiram-se as badaladas do sino a chamar o povo para a Eucaristia.
Os bombeiros, exaustos, continuavam na serra a combater um fogo enorme que não lhes dá tréguas. À cautela, muitos populares tentam impedir o avanço de chamas mais pequenas próximo das suas habitações. Outros, com mangueiras e baldes continuam a molhar as suas casas de cima a baixo, impedindo que as faúlhas voadoras e incandescentes lhes pegue fogo.
Ouvem-se as sirenes dos carros dos bombeiros de um lado para o outro, aflitas. Vão e vem do monte em chamas. Mais água, mais uma dúzia de homens da paz em correria…
Mais uma dúzia de foguetes rebenta no céu a lembrar a romaria à Senhora Santinha Padroeira.
À noite, vai haver fogo-de-artifício… se o incêndio não chegar primeiro.

José Faria